1. Descrição do Problema e Escopo
Este guia técnico detalha procedimentos para o diagnóstico e resolução de erros de medição em medidores de vazão industriais. A precisão na medição de vazão é crítica para o controle de processo, balanços de massa e energia, e conformidade regulatória em setores como químico, petroquímico, alimentos e bebidas, e tratamento de água. Erros de medição podem resultar em perda de produção, qualidade inconsistente do produto, consumo excessivo de energia e riscos ambientais.
Este documento abrange medidores de vazão comuns, incluindo:
- Medidores de Vazão de Placa de Orifício (DP)
- Medidores de Vazão Magnéticos (Magmeter)
- Medidores de Vazão Ultrassônicos (Doppler e Tempo de Trânsito)
- Medidores de Vazão Tipo Coriolis
- Medidores de Vazão Tipo Turbina
- Medidores de Vazão Vórtex
Os principais tipos de erros abordados são:
- Efeitos de Instalação: Irregularidades no perfil de vazão devido a válvulas, curvas ou reduções inadequadas.
- Mudanças nas Condições do Processo: Variações de temperatura, pressão, viscosidade ou densidade fora das especificações de projeto do medidor.
- Desvio de Calibração: Perda gradual de precisão do instrumento ao longo do tempo.
- Incrustação/Revestimento (Coating/Fouling): Acúmulo de material na superfície interna do medidor ou nos sensores.
Classificação de Severidade:
- Crítico: Erros que afetam diretamente a segurança, paradas de processo ou conformidade regulatória (tolerância > 10% do valor esperado).
- Maior: Erros que impactam a qualidade do produto, eficiência operacional ou balanços (tolerância 3% – 10% do valor esperado).
- Menor: Erros que causam pequenas inconsistências ou desvios em dados secundários (tolerância < 3% do valor esperado).
2. Precauções de Segurança
AVISO DE SEGURANÇA CRÍTICO: Antes de iniciar qualquer procedimento de diagnóstico ou manutenção em um medidor de vazão, é obrigatório implementar o procedimento de Bloqueio/Sinalização (LOTO – Lockout/Tagout) conforme a NBR 5410 (instalações elétricas) e NR-12 (segurança em máquinas). Certifique-se de que a linha de processo esteja despressurizada, drenada e isolada termicamente. O uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados, como óculos de segurança, luvas de proteção química/mecânica e capacete, é mandatório. Esteja ciente da energia armazenada em sistemas hidráulicos/pneumáticos e da presença de fluidos perigosos ou em alta temperatura.
3. Ferramentas de Diagnóstico Necessárias
A seguir, uma tabela detalhando as ferramentas essenciais para um diagnóstico eficaz:
| Ferramenta | Especificação/Modelo Recomendado | Faixa de Medição Típica | Propósito |
|---|---|---|---|
| Multímetro Digital | Fluke 179 ou similar (CAT III, 1000V) | Tensão DC/AC (mV a 1000V), Corrente DC/AC (mA a 10A), Resistência (Ω a MΩ) | Verificação de sinais de saída (4-20mA, pulso), alimentação elétrica do medidor. |
| Calibrador de Processo | Fluke 754 ou similar (Precisão 0,025% da escala total) | Geração e medição de sinais (mV, mA, V, frequência, temperatura RTD/termopar) | Simulação de sinal de entrada/saída, calibração em campo. |
| Manômetro Padrão | Classe A, NBR 14105 (Precisão ±0,25% FS) | 0 a 100 bar, 0 a 400 bar (conforme processo) | Verificação da pressão estática do processo e diferencial (em placa de orifício). |
| Termômetro de Contato/Termopar | Fluke 52 II ou similar (Tipo K/J) | -200°C a 1372°C | Medição da temperatura do processo. |
| Analisador de Vibração Portátil | SKF Microlog AX ou similar | Faixa de 10 Hz a 10 kHz, Aceleração (g), Velocidade (mm/s RMS) | Detecção de vibração excessiva que afete medidores de turbina ou vórtex. Limite aceitável: < 4.5 mm/s RMS (conforme ISO 10816). |
| Câmera Termográfica | Flir E8 ou similar | Faixa de -20°C a 650°C, Resolução térmica 320×240 | Identificação de pontos quentes/frios anômalos que indiquem incrustação ou má isolação. Diferenças > 5°C em pontos esperados são suspeitas. |
| Medidor de Espessura Ultrassônico | Olympus 38DL PLUS ou similar | 0,20 mm a 635 mm | Verificação de incrustação interna na parede da tubulação (indireta) e integridade mecânica. |
| Software de Configuração do Medidor | Ferramenta proprietária do fabricante (ex: HART communicator, FieldComm Group) | Interface de comunicação com o medidor | Acesso a parâmetros de configuração, diagnóstico interno e dados de calibração. |
4. Lista de Verificação de Avaliação Inicial
Antes de iniciar qualquer diagnóstico, colete as seguintes informações:
| Item de Verificação | O que Observar/Registrar | Propósito | Status (OK/Não OK) |
|---|---|---|---|
| Inspeção Visual | Verificar vazamentos, danos físicos, conexões soltas, obstruções externas, isolamento. | Identificar problemas óbvios que possam afetar a operação ou segurança. | |
| Parâmetros do Processo | Registrar vazão, pressão (bar), temperatura (°C) e nível do fluido no ponto de medição (se aplicável). | Comparar com os valores de projeto e os valores esperados. | |
| Alarmes e Eventos | Consultar o histórico de alarmes do sistema de controle (DCS/PLC) relacionados ao medidor de vazão. | Identificar padrões ou eventos anteriores que possam indicar a causa da falha. | |
| Manutenção Recente | Verificar registros de manutenção, modificações na linha ou no medidor, calibrações anteriores. | Relacionar o problema com intervenções recentes. | |
| Condições de Instalação | Observar o comprimento de tubulação reta a montante e a jusante, a presença de válvulas, curvas ou reduções próximas. | Verificar conformidade com as recomendações do fabricante (NBR 14167 para tubulações). | |
| Densidade/Viscosidade | Confirmar se as propriedades do fluido (densidade em kg/m³, viscosidade em cP) estão dentro da faixa para a qual o medidor foi projetado e calibrado. | Avaliar impacto em medidores sensíveis a essas propriedades (ex: Coriolis para densidade, turbina para viscosidade). | |
| Aterramento/Blindagem | Verificar o aterramento adequado do medidor, especialmente Magmeters, conforme ABNT NBR 5410. | Garantir a integridade do sinal e evitar ruídos elétricos. |
5. Fluxograma de Diagnóstico Sistemático
Este fluxograma orienta a identificação da causa raiz dos erros de medição. Comece pelo sintoma principal.
- Sintoma: Medição de Vazão Incorreta ou Fora do Padrão (Leitura Estável, mas Errada)
- Verificação Inicial:
- Confirmar dados de processo (P, T, composição) com o operador.
- Comparar leitura com balanço de massa conhecido ou medidor de referência (se disponível).
- Verificar configurações do medidor via software (ex: tag, unidade, faixa de medição).
- Diagnóstico de Efeitos de Instalação:
- Observar Condições a Montante/Jusante:
- Se tubulação reta insuficiente: → Causa Provável: Perfil de vazão turbulento/distorcido.
- Se válvulas (ex: borboleta, esfera) ou curvas próximas: → Causa Provável: Perturbação do fluxo, vórtices.
Teste: Inspeção visual da instalação. Consulta ao manual do fabricante para requisitos de comprimento de tubulação reta (geralmente 5-20 diâmetros a montante, 2-5 a jusante).
Resultado Esperado: Não conformidade com as recomendações de instalação.
- Observar Condições a Montante/Jusante:
- Diagnóstico de Mudanças nas Condições do Processo:
- Analisar Variações de Temperatura e Pressão:
- Se T ou P fora da faixa de projeto: → Causa Provável: Erro de compensação de densidade/viscosidade ou erro do sensor de T/P.
- Se densidade/viscosidade do fluido alterada: → Causa Provável: Desvio na calibração ou no fator K (para medidores de turbina/vórtex).
Teste: Medir P e T com instrumentos calibrados (manômetro padrão, termopar) e comparar com o display do medidor e os valores de projeto. Coletar amostra para análise de densidade/viscosidade em laboratório.
Resultado Esperado: Diferença > 1 bar ou > 5°C; ou densidade/viscosidade fora da faixa de engenharia.
- Analisar Variações de Temperatura e Pressão:
- Diagnóstico de Desvio de Calibração:
- Verificar Saída do Medidor:
- Se medidor com sinal 4-20mA ou pulsos: → Causa Provável: Desvio do transdutor ou eletrônica.
Teste: Isolar o medidor. Usar calibrador de processo para simular entradas conhecidas (se aplicável) e verificar a saída. Se não for possível, realizar calibração em campo ou bancada.
Resultado Esperado: Saída (mA ou pulsos) não corresponde à vazão de entrada esperada (desvio > 0.5% da FS).
- Verificar Saída do Medidor:
- Diagnóstico de Incrustação/Revestimento (Coating/Fouling):
- Inspecionar Internamente (se possível e seguro):
- Se houver acúmulo de material: → Causa Provável: Redução da área de passagem, alteração na geometria do sensor.
Teste: Após LOTO e drenagem, remover o medidor e inspecionar visualmente. Em medidores ultrassônicos, verificar a condição dos transdutores. Em Magmeters, verificar o revestimento interno do tubo e os eletrodos. Uso de medidor de espessura ultrassônico na parede externa do tubo pode indicar acúmulo interno.
Resultado Esperado: Presença de material estranho, crostas, depósitos nos sensores ou na parede interna do medidor.
- Inspecionar Internamente (se possível e seguro):
- Verificação Inicial:
- Sintoma: Medição de Vazão Errática ou Instável (Leitura Flutua Excessivamente)
- Verificação Inicial:
- Confirmar estabilidade do processo (pressão, temperatura, nível). Instabilidade na fonte de vazão pode ser a causa.
- Verificar a presença de ar, gás ou bolhas no fluido.
- Diagnóstico de Ruído Elétrico:
- Se a fiação estiver próxima a motores, VFDs ou cabos de potência: → Causa Provável: Interferência eletromagnética (EMI).
- Se aterramento inadequado: → Causa Provável: Ruído elétrico de modo comum.
Teste: Verificar o aterramento do medidor e da blindagem do cabo de sinal com multímetro (resistência < 1 Ohm para terra). Verificar o roteamento do cabo de sinal. Usar um osciloscópio para verificar a presença de ruído no sinal de saída.
Resultado Esperado: Aterramento deficiente ou ruído > 100 mVpp no sinal.
- Verificação Inicial:
- Diagnóstico de Problemas Mecânicos (Medidores de Turbina/Vórtex):
- Se houver desgaste ou danos nas pás da turbina ou no gerador de vórtex: → Causa Provável: Obstrução ou falha mecânica.
Teste: Realizar análise de vibração. Abrir e inspecionar visualmente (após LOTO).
Resultado Esperado: Níveis de vibração acima do limite (ex: > 4.5 mm/s RMS) ou danos visíveis.
- Se houver desgaste ou danos nas pás da turbina ou no gerador de vórtex: → Causa Provável: Obstrução ou falha mecânica.
- Diagnóstico de Fluido Bifásico/Multifásico:
- Se houver formação de bolhas de gás em líquido ou gotas de líquido em gás: → Causa Provável: Medidor não projetado para fluidos multifásicos.
Teste: Observação visual (se linha transparente), análise de amostra do fluido, verificar condições de P e T do processo (ponto de bolha/orvalho).
Resultado Esperado: Evidência de mais de uma fase presente no fluido.
- Verificação de Alimentação Elétrica:
- Se medidor sem alimentação ou fusível queimado: → Causa Provável: Falha elétrica.
Teste: Verificar tensão de alimentação com multímetro (geralmente 24VDC ou 120/240VAC). Verificar fusíveis.
Resultado Esperado: Tensão ausente ou fora da especificação.
- Se circuito 4-20mA aberto ou em curto: → Causa Provável: Fiação danificada, conexão solta.
Teste: Medir corrente no loop 4-20mA com multímetro em série. Medir resistência do loop (se desligado).
Resultado Esperado: Corrente zero, corrente máxima (20mA) ou valor anômalo. Circuito aberto ou em curto.
- Se válvula a montante fechada ou tubulação bloqueada: → Causa Provável: Ausência de fluxo.
Teste: Confirmar abertura de válvulas. Verificar pressão a montante e jusante do medidor.
Resultado Esperado: Nenhuma vazão na linha, pressão a montante alta e a jusante baixa.
- Se todos os outros pontos eliminados: → Causa Provável: Falha eletrônica ou mecânica interna no medidor.
Teste: Usar software de configuração do fabricante para verificar diagnóstico interno. Substituir medidor por um conhecido em bom funcionamento.
Resultado Esperado: Erro de diagnóstico interno, substituição do medidor resolve o problema.
6. Matriz Falha-Causa
Esta matriz resume sintomas, causas prováveis, testes e resultados esperados.
| Sintoma | Causas Prováveis (Likelihood) | Teste Diagnóstico | Resultado Esperado se Causa Confirmada |
|---|---|---|---|
| Leitura Incorreta/Desvio Constante | 1. Desvio de Calibração (Alta) 2. Efeitos de Instalação (Média) 3. Alterações de Propriedades do Fluido (Média) 4. Incrustação Leve (Baixa) |
1. Calibração em campo/bancada 2. Inspeção da tubulação a montante/jusante 3. Análise de amostra do fluido (densidade, viscosidade) 4. Inspeção visual interna (se seguro) |
1. Saída do medidor fora da tolerância 2. Comprimento de tubulação reta insuficiente, elementos perturbadores 3. Propriedades do fluido fora da faixa de projeto/calibração 4. Pequenos depósitos, redução da área de passagem |
| Leitura Errática/Instável | 1. Ar/Gás no Fluido (Alta) 2. Ruído Elétrico (Média) 3. Instabilidade do Processo (Média) 4. Incrustação/Dano Físico (Média – Vórtice/Turbina) |
1. Inspeção visual, análise de processo 2. Verificar aterramento, osciloscópio no sinal 3. Monitorar P, T, Nível a montante 4. Análise de vibração, inspeção interna |
1. Bolhas visíveis, ‘slug flow’ 2. Aterramento deficiente, picos de ruído > 100 mVpp 3. Flutuações de P, T > 10% 4. Vibração excessiva, danos nos sensores/mecanismos internos |
| Leitura Zero ou Fora da Faixa | 1. Ausência de Fluxo (Alta) 2. Falha Elétrica (Alimentação/Sinal) (Alta) 3. Falha do Sensor/Eletrônica (Média) 4. Obstrução Total (Baixa) |
1. Verificar válvulas, pressões na linha 2. Multímetro na alimentação e loop de sinal 3. Software de diagnóstico do fabricante, teste de substituição 4. Inspeção interna (após LOTO) |
1. Válvula fechada, ∆P zero 2. Tensão ausente, loop aberto/curto 3. Erro de diagnóstico interno, medidor não responde 4. Obstrução visível completa |
7. Análise da Causa Raiz para Cada Falha
7.1. Efeitos de Instalação
Por que acontece: Os medidores de vazão requerem um perfil de vazão estável e desenvolvido para operar com precisão. Componentes como válvulas (especialmente borboleta ou esfera), curvas, reduções ou expansões de tubulação, e Tês de derivação criam turbulência e distorcem o perfil de velocidade do fluido. Se esses elementos estiverem muito próximos ao medidor (montante ou jusante), o fluxo não terá tempo suficiente para se estabilizar, levando a erros de medição significativos. As recomendações dos fabricantes sobre o comprimento de tubulação reta são baseadas em testes rigorosos para garantir um perfil de fluxo laminar ou totalmente turbulento, mas simétrico.
Como confirmar: A inspeção visual é o método principal. Consultar o manual de instalação do fabricante para verificar os comprimentos mínimos de tubulação reta e compará-los com a instalação real. Medidores de placa de orifício são particularmente sensíveis e requerem longos trechos retos. Medidores ultrassônicos do tipo tempo de trânsito também são afetados, enquanto medidores Coriolis e magnéticos são mais tolerantes, mas não imunes.
Dano se não resolvido: Erros de medição persistentes que levam a dosagem incorreta de reagentes, balanços de massa e energia imprecisos, e perda de eficiência ou qualidade do produto. Em casos extremos, pode gerar alarmes falsos ou atuação indevida de malhas de controle.
7.2. Mudanças nas Condições do Processo
Por que acontece: A maioria dos medidores de vazão é calibrada para condições específicas de processo (temperatura, pressão, densidade, viscosidade). Medidores de vazão por pressão diferencial (placa de orifício), por exemplo, dependem diretamente da densidade do fluido para calcular a vazão mássica ou volumétrica. Variações significativas nessas propriedades, sem a devida compensação, introduzirão erros. Medidores tipo turbina são sensíveis à viscosidade, e medidores ultrassônicos podem ser afetados pela temperatura e composição do fluido, que alteram a velocidade do som.
Como confirmar: Usar um manômetro padrão e um termômetro calibrado para verificar a pressão e temperatura do processo. Coletar amostras do fluido para análise laboratorial de densidade e viscosidade e comparar com as especificações de projeto. A análise do histórico de dados do processo (P, T, composição) pode revelar tendências ou mudanças súbitas.
Dano se não resolvido: Cálculos incorretos de vazão, dosagem inadequada de produtos químicos, controle de processo ineficaz e impacto direto na qualidade e no custo de produção. Pode mascarar outros problemas ou levar a diagnósticos errados.
7.3. Desvio de Calibração
Por que acontece: Todos os instrumentos de medição, ao longo do tempo, sofrem um desvio em sua calibração devido a fatores como envelhecimento dos componentes eletrônicos, desgaste mecânico (em medidores com partes móveis como turbinas), exposição a condições severas de processo (temperatura, pressão, vibração) ou choque. Este desvio é uma mudança gradual na relação entre o valor verdadeiro e o valor medido.
Como confirmar: Realizar uma calibração em campo ou em bancada, comparando a leitura do medidor com um padrão rastreável (conforme INMETRO). Para medidores que geram sinal 4-20mA, testar a linearidade usando um calibrador de processo. Para medidores Coriolis, a verificação da densidade e do ponto zero é crucial. A NBR ISO/IEC 17025 estabelece os requisitos gerais para a competência de laboratórios de ensaio e calibração.
Dano se não resolvido: Medições consistentemente erradas, resultando em perdas financeiras (compra/venda incorreta de material), má qualidade do produto e não conformidade com regulamentos ou especificações internas. Pode levar a uma falsa sensação de segurança ou problemas de controle que não são atribuídos à calibração.
7.4. Incrustação/Revestimento (Coating/Fouling)
Por que acontece: O acúmulo de material (sólidos em suspensão, polímeros, sais cristalizados, biofilmes) na superfície interna do medidor ou nos seus sensores é comum em muitos processos industriais. Essa incrustação pode reduzir a área de passagem efetiva do fluxo, alterar a geometria do sensor (ex: eletrodos de Magmeter, transdutores ultrassônicos, corpo gerador de vórtices), ou até mesmo isolar os sensores do fluido. Isso leva a leituras erráticas ou consistentemente baixas, pois o medidor interpreta um volume ou velocidade de fluxo menor.
Como confirmar: A inspeção visual direta é o método mais eficaz, após o isolamento e drenagem da linha. Para medidores onde a desmontagem é difícil, um medidor de espessura ultrassônico pode indicar acúmulo significativo na parede do tubo. Em Magmeters, verificar a resistência dos eletrodos e o estado do revestimento isolante. Em medidores ultrassônicos, verificar a superfície dos transdutores.
Dano se não resolvido: Erros de medição crescentes, necessidade de calibrações mais frequentes, possível dano aos componentes internos do medidor e, em casos graves, bloqueio completo da linha de processo. A remoção da incrustação pode ser mais complexa e cara se o acúmulo for severo.
8. Procedimentos de Resolução Passo a Passo
8.1. Para Efeitos de Instalação
- Reengenharia da Tubulação:
- Avaliar a possibilidade de realocar o medidor ou redesenhar a tubulação para atender aos requisitos de comprimento de trecho reto do fabricante (ex: mínimo de 10 diâmetros a montante e 5 diâmetros a jusante).
- Considerar a instalação de condicionadores de fluxo (flow conditioners) se a realocação não for viável. Estes dispositivos ajudam a criar um perfil de fluxo mais uniforme em um espaço menor.
- Substituição de Medidor:
- Se a reengenharia for impraticável, considerar a substituição por um tipo de medidor menos sensível às condições de instalação (ex: medidor Coriolis ou magnético em vez de placa de orifício ou turbina).
8.2. Para Mudanças nas Condições do Processo
- Compensação de Processo:
- Se as variações de P e T forem controláveis, garantir que o sistema de controle as mantenha dentro da faixa de projeto.
- Implementar ou ajustar algoritmos de compensação de densidade/viscosidade no sistema de controle (DCS/PLC) ou na eletrônica do medidor, se suportado. Isso requer sensores de P e T calibrados e uma tabela de propriedades do fluido.
- Recalibração:
- Recalibrar o medidor de vazão para as novas condições de operação ou para uma faixa que abranja as variações.
- Seleção de Medidor:
- Se as mudanças de processo forem permanentes e significativas, avaliar a seleção de um medidor mais adequado às novas condições (ex: um medidor Coriolis pode lidar melhor com variações de densidade e viscosidade).
8.3. Para Desvio de Calibração
- Calibração Completa:
- AVISO: Aplicar LOTO. Remover o medidor da linha (se calibração em bancada) ou prepará-lo para calibração em campo.
- Realizar uma calibração completa em um laboratório certificado ou com padrões rastreáveis (INMETRO). Para Magmeters, calibrar o ponto zero e a faixa de vazão. Para medidores Coriolis, verificar o ponto zero da densidade e da vazão.
- Ajustar o fator K (para medidores de turbina) ou os parâmetros de linearização.
- Verificação Pós-Calibração:
- Reinstalar o medidor (se removido).
- Verificar a leitura em condições de processo normais e comparar com um balanço de massa ou medidor de referência.
- Ajustar a frequência de calibração com base no histórico de desvios.
8.4. Para Incrustação/Revestimento
- Limpeza Mecânica/Química:
- AVISO: Aplicar LOTO. Drenar e despressurizar a linha. Usar EPIs adequados para o tipo de resíduo e produto químico de limpeza.
- Remover o medidor da linha.
- Limpar o interior do medidor e os sensores utilizando métodos mecânicos (escovas macias, jatos de água de alta pressão) ou químicos (soluções de limpeza compatíveis com os materiais do medidor e do processo). Evitar danos aos eletrodos, transdutores ou revestimentos.
- Inspecionar visualmente após a limpeza para garantir a remoção completa da incrustação.
- Ajustes no Processo:
- Considerar mudanças nas condições do processo que minimizem a incrustação (ex: ajuste de pH, temperatura, adição de inibidores de incrustação).
- Seleção de Material/Tecnologia:
- Se o problema for recorrente, avaliar a substituição por um medidor com materiais de construção mais resistentes à incrustação ou uma tecnologia menos suscetível (ex: medidores ultrassônicos de clamp-on ou de tempo de trânsito que não têm contato com o fluido).
9. Medidas Preventivas
Estratégias para evitar a recorrência de erros de medição.
| Causa Raiz | Estratégia de Prevenção | Método de Monitoramento | Intervalo Recomendado |
|---|---|---|---|
| Efeitos de Instalação | Seguir rigorosamente as recomendações do fabricante e normas ABNT (ex: NBR 14167) para comprimentos de tubulação reta. | Auditorias periódicas de instalação, inspeção visual durante paradas. | Anual ou a cada grande parada de manutenção. |
| Mudanças nas Condições do Processo | Monitoramento contínuo de P, T, densidade e viscosidade. Usar medidores com compensação automática ou projetados para ampla faixa de operação. | Análise de tendências do historiador de dados de processo. Amostragens regulares. | Diário (para tendências), Mensal (para amostragens). |
| Desvio de Calibração | Programa de calibração preditiva/preventiva baseado em análise de tendências de desvio e criticidade do processo. | Certificados de calibração, histórico de desvios. | 6-12 meses (inicialmente), ajustado conforme análise. |
| Incrustação/Revestimento | Limpeza regular programada. Seleção de materiais de construção e tecnologias de medidor resistentes à incrustação. Tratamento químico do fluido. | Inspeção visual em paradas, testes de resposta do medidor, análise de tendências de vazão. | Trimestral a Semestral (limpeza), Anual (inspeção de materiais). |
10. Peças de Reposição e Componentes
Manter um estoque adequado de peças de reposição críticas minimiza o tempo de inatividade. A tabela abaixo lista componentes comuns.
| Descrição da Peça | Especificação Típica | Quando Substituir | Categoria UNITEC |
|---|---|---|---|
| Junta de Vedação (Gasket) | Material (ex: PTFE, borracha EPDM), Dimensão (DN, PN) | Sempre que o medidor for removido ou remontado. | Vedantes Industriais |
| Anéis de Vedação (O-Rings) | Material (ex: Viton, Nitrilo), Dimensão | Em cada manutenção que envolva a abertura do medidor. | Vedantes Industriais |
| Eletrodos de Magmeter | Material (ex: Hastelloy, Titânio), Diâmetro | Se houver corrosão, desgaste ou falha de leitura (resistência anormal). | Instrumentação e Sensores |
| Revestimento Interno (Magmeter) | Material (ex: PTFE, Poliuretano) | Se danificado, delaminado ou com acúmulo irremovível. | Instrumentação e Sensores |
| Transdutores Ultrassônicos | Frequência (kHz), Material (ex: PEEK) | Se houver falha de sinal, rachaduras ou desgaste. | Instrumentação e Sensores |
| Pás/Rotor de Turbina | Material (ex: Aço Inoxidável), Diâmetro | Se houver desgaste excessivo, quebra ou perda de linearidade. | Componentes Rotativos |
| Placa de Orifício | Material (ex: Aço Inox 316), Diâmetro do Orifício | Se houver erosão, corrosão ou danos à aresta de medição. | Elementos de Medição DP |
| Eletrônica de Head (PCB) | Número de Parte do Fabricante | Em caso de falha eletrônica confirmada e irreparável. | Componentes Eletrônicos |
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11. Referências
- ABNT NBR 5410: Instalações Elétricas de Baixa Tensão.
- ABNT NBR 14105: Medidores de Pressão.
- ABNT NBR 14167: Instalação de Instrumentos de Medição de Vazão.
- ABNT NBR ISO/IEC 17025: Requisitos Gerais para a Competência de Laboratórios de Ensaio e Calibração.
- NR-10: Segurança em Instalações e Serviços em Eletricidade.
- NR-12: Segurança no Trabalho em Máquinas e Equipamentos.
- Manuais de Operação e Manutenção do Fabricante OEM do Medidor de Vazão.
- ISA (International Society of Automation) Standards: ISA-RP75.05.01 – Control Valve Flowsheet Symbols.
- INMETRO – Guias de Calibração e Metrologia.